Tenho 46 anos e cresci numa época em que as manhãs tinham desenho. Bastava ligar a TV e lá estavam seis crianças perdidas num reino estranho, um unicórnio filhote sempre atrás do Bobby e aquele velhinho baixinho que surgia do nada, falava em charadas e desaparecia antes de responder o que importava. Caverna do Dragão passava praticamente todo dia, entre quadros dos programas infantis. Décadas depois, essa lembrança ainda resiste – e, junto com ela, a pergunta que nunca envelhece: afinal, como acaba Caverna do Dragão?
O curioso é que o desenho durou pouco. Foram apenas 27 episódios, exibidos nos Estados Unidos entre 1983 e 1985, com sucesso modesto por lá. No Brasil, virou outra coisa. Estreou em 1985 no Balão Mágico, explodiu no Xou da Xuxa, passou pelo TV Colosso em 1994, reapareceu no Gloob em 2013 e só deixou de ser exibido na Globo em 2014. Quem era criança nos anos 80 viu. Quem era nos 90 também. E muita gente mais nova conheceu pelo ciclo eterno de reprises. O país adotou o desenho como patrimônio afetivo.
Talvez porque, por quase uma década, a gente só conheceu duas temporadas. A terceira demorou para chegar. Resultado: parecia uma história sem fim. E o Brasil, que não gosta de deixar pergunta sem resposta, inventou as suas. No fim dos anos 90 circulava por e-mail que as crianças tinham morrido na montanha-russa e o reino era o inferno. O Mestre dos Magos (ou o Vingador, dependendo de quem contava) seria o diabo, e o Uni, um diabrete.
Era arrepiante – e falso. Michael Reaves, Mark Evanier e Gary Gygax desmentiram tudo. Mesmo assim, muita gente jura até hoje ter visto o último episódio na TV.
A verdade é que um final existe – mas só no papel. Em 1985, Michael Reaves escreveu o roteiro “Requiem” para encerrar a série. Nele, o Vingador revela-se filho do Mestre dos Magos e é redimido. O grupo se divide, Eric finalmente toma a decisão corajosa e liberta os prisioneiros do reino. O portal para casa se abre, mas a cena corta antes da resposta. Eles voltam ou ficam? Nunca saberemos. A Wizards of the Coast, dona da franquia hoje, nem considera esse episódio como parte da franquia.
Enquanto isso, o Brasil tratou de criar seus próprios finais. Em 2019, um comercial da Renault mostrou o grupo finalmente indo embora de carro, com Orlando Drummond dublando o Vingador aos 99 anos. Em 2024, veio o “Episódio Perdido” em stop-motion, com os dubladores originais. Quarenta anos depois, a gente ainda queria fechar aquela porta.
Quando li o roteiro oficial, pensei em Matrix. Antes da pílula vermelha e da azul, Caverna do Dragão já propunha a mesma escolha: voltar à vida comum, onde Hank é só um garoto num parque de diversões, ou ficar num mundo onde você é herói? Mas com uma diferença essencial: o reino era real. Não era a Matrix. E talvez por isso tenhamos transformado aquela porta aberta numa prisão, inventando finais sombrios para nos confortar.
Mais de quatro décadas se passaram. O portal ainda está lá, escancarado. E nós, espectadores crescidos, continuamos diante dele. No fundo, a pergunta sempre foi nossa: você voltaria… ou ficaria?